A maioria das sessões de interior acontece em divisões que ninguém desenhou para fotografia: um apartamento arrendado, um quarto de hotel, a cozinha de uma avó. Não há espaço para tripés, não há tempo para montar nada, e a cliente já está de pé à espera.
A boa notícia é que a divisão já tem uma fonte de luz que os estúdios pagam para imitar. Uma janela é grande, suave, direccional e gratuita. Não lhe pede equipamento: pede três decisões que demoram cerca de noventa segundos.
Percorra a divisão antes de colocar seja quem for
Não comece onde a cliente está por acaso. Entre, ignore os móveis e procure só luz.
- Encontre a maior janela. O que torna a luz suave é o tamanho da fonte em relação ao motivo, por isso uma janela grande de perto é a luz mais suave do edifício.
- Veja onde essa luz cai. Uma parede branca em frente à janela é um reflector grátis. Uma estante escura no mesmo sítio é uma bandeira grátis. Ambas já foram decididas por outra pessoa.
- Verifique o que está atrás da pessoa, não só à frente. Metade do trabalho de uma boa imagem de interior é encontrar dois metros quadrados de fundo limpo.
- E só depois mexa nos móveis. Um cadeirão puxado dois metros para a janela muda mais do que qualquer definição da câmara.
A distância é o único regulador que tem
Em interiores a luz cai depressa. É um problema quando se luta contra isso e uma ferramenta quando se usa.
Afaste alguém de um metro para dois metros da janela e desaparecem cerca de três quartos da luz, porque a intensidade cai com o quadrado da distância. É por isso que a sala parece escura a dois passos do vidro.
As duas posições servem, por razões opostas:
- Encostado à janela dá a luz mais suave e a queda mais acentuada. O lado afastado da cara escurece depressa e o fundo ainda mais. É a sua posição dramática, modelada, editorial.
- A dois ou três metros dá uma luz mais plana e uniforme sobre um grupo e um fundo com brilho próximo do das caras. É a posição para famílias, para tudo com mais de duas pessoas e para quem só quer ficar bem.
Se guardar uma coisa: para tornar a luz mais suave, aproxime a pessoa da janela, não a câmara da pessoa.
O ângulo decide o tom, e define-o com os pés
Uma janela, uma pessoa, e tudo depende de quem se coloca onde.
- Pessoa de frente para a janela, o senhor pelo meio. Plana, limpa, indulgente. Praticamente sem sombra. Boa para retratos profissionais, para a pele e para quem esteja nervoso com a própria cara.
- Janela a quarenta e cinco graus. A posição por omissão do retrato. Dá uma sombra de nariz que fica do lado sombreado e uma maçã do rosto visível. Se aprender um esquema, aprenda este.
- Janela mesmo de lado. Meia cara iluminada, meia na sombra. Forte e sombrio, e pouco favorecedor para quase toda a gente que não o pediu.
- Janela atrás da pessoa. Contraluz, um rebordo brilhante no cabelo, uma névoa suave. Exponha para a cara e deixe a janela queimar: uma janela branca no enquadramento não é um erro, é o objectivo.
Rode a pessoa, não a sala. Quinze graus de rotação mudam a sombra numa cara mais do que qualquer item de menu.
Desligue as luzes do tecto
É o erro corrigível mais comum em interiores e não custa nada.
A luz do dia por uma janela anda pelos 5500 a 6500 kelvin. As lâmpadas domésticas andam pelos 2700 a 3000. Quando as duas batem na mesma cara, nenhum equilíbrio de brancos resolve: corrige a luz do dia e o lado do candeeiro fica cor de laranja; corrige o candeeiro e o lado da janela fica azul. A pele acaba com duas cores na mesma imagem.
Desligue tudo o que é artificial, ponha o equilíbrio de brancos em luz do dia e deixe a sala escurecer. Mais escuro e de uma cor bate mais claro e de duas.
A excepção é quando o candeeiro faz visivelmente parte da imagem: um candeeiro de cabeceira no enquadramento, uma cozinha quente à noite. Aí é uma fonte motivada e o lugar dela é ali. Isso é uma decisão, não um acidente.
Leia o tempo, não o relógio
O conselho da hora dourada é o menos útil em interiores, porque a maioria das sessões fica marcada para as onze da manhã.
- Céu encoberto é a melhor luz de janela que existe. O céu inteiro passa a ser a fonte, por isso a luz mantém-se suave em qualquer ponto da sala. Um dia cinzento é uma prenda, não um remedeio.
- Sol directo através do vidro é pequeno, duro e contrastado. Não lute: ou pendura um cortinado branco e transforma a janela num softbox enorme, ou usa as formas duras de propósito e deixa uma faixa de sol atravessar o enquadramento.
- Uma janela virada a norte no hemisfério norte nunca apanha sol directo, por isso mantém-se constante o dia todo. A sul do equador o equivalente é uma janela virada a sul. É nessa divisão que faz as imagens que não pode dar-se ao luxo de perder.
Quando a divisão é mesmo má
Janela pequena, paredes escuras, sem espaço. Acontece, e não se resolve só com mais abertura.
- Fotografe no vão da porta. As portas são as aberturas mais largas da maioria das casas e muitas vezes apanham luz de duas divisões ao mesmo tempo.
- Ponha um edredão branco ou uma toalha mesmo fora do enquadramento do lado da sombra. Uma cama de hotel é um reflector de dois metros em que ninguém pensa.
- Suba o ISO antes de baixar a velocidade. O grão é uma textura e os clientes perdoam-no. Uma cara tremida não se recupera.
- Chegue-se mais perto. Encha o enquadramento com duas caras e uma mão e a divisão feia desaparece sem que tenha de a arranjar.
A verificação de noventa segundos
- Maior janela encontrada, o resto ignorado
- Pessoa a um ou dois metros dela, conforme o modelado que quiser
- Janela a cerca de quarenta e cinco graus da cara
- Todos os candeeiros desligados, equilíbrio de brancos em luz do dia
- Parede clara ou lençol do lado da sombra
- Fundo verificado antes da primeira imagem, não depois
Nada disto exige um saco. Exige que passe os primeiros noventa segundos a olhar para a luz em vez de olhar para a cliente.